Cemitérios históricos ocupam um lugar singular no patrimônio cultural urbano. Nesse sentido, Tiago Schietti parte de uma premissa que poucos gestores colocam em palavras com tanta clareza: esses espaços carregam camadas de memória coletiva que vão muito além de sua função primária. Eles documentam a história de cidades, famílias e comunidades inteiras, tornando-se arquivos vivos de identidade cultural. Manter essa herança viva, porém, exige muito mais do que boa vontade: demanda planejamento, recursos e uma visão estratégica que harmonize o respeito ao passado com as exigências do presente.
Este artigo explora os principais desafios e caminhos para esse equilíbrio, abordando tombamento, financiamento, turismo e gestão sustentável.
O tombamento protege ou engessa a gestão dos cemitérios históricos?
O tombamento é, ao mesmo tempo, uma conquista e um desafio para os administradores de cemitérios históricos. Por um lado, o reconhecimento oficial garante proteção legal ao patrimônio arquitetônico, artístico e paisagístico desses espaços, impedindo intervenções que possam comprometer sua integridade. Por outro, impõe restrições que nem sempre dialogam com as necessidades operacionais cotidianas, como reformas emergenciais, ampliação de infraestrutura e modernização de serviços.
De acordo com Tiago Schietti, o tombamento precisa ser encarado como ponto de partida para um modelo de gestão mais sofisticado, e não como obstáculo. Isso exige diálogo constante com os órgãos de patrimônio, elaboração de planos de conservação preventiva e capacitação de equipes para lidar com edificações históricas. Quando bem conduzido, o processo transforma restrições em oportunidades concretas de valorização e diferenciação institucional.
Como os cemitérios históricos podem se financiar sem perder sua identidade?
A sustentabilidade financeira é um dos nós mais difíceis de desatar na gestão de cemitérios tombados. Os custos de manutenção de estruturas centenárias são significativamente superiores aos de espaços convencionais, enquanto as receitas operacionais tradicionais muitas vezes não são suficientes para cobrir essas despesas. Esse desequilíbrio crônico coloca em risco tanto a conservação do acervo quanto a qualidade dos serviços prestados às famílias.
A diversificação das fontes de receita apresenta-se, sob a perspectiva de Tiago Schietti, como estratégia essencial para romper esse ciclo. Parcerias com instituições culturais, captação de recursos via leis de incentivo fiscal, realização de eventos educativos e o desenvolvimento do turismo cemiterial são alternativas que já demonstram resultados concretos em diferentes países. O segredo está em atrair novos públicos sem descaracterizar o ambiente e sem ferir a sensibilidade dos que utilizam o espaço para fins fúnebres.

O turismo cemiterial pode ser aliado da preservação cultural?
O turismo em cemitérios históricos cresceu de forma expressiva nas últimas décadas, especialmente em países como França, Argentina e Reino Unido. Esses espaços atraem visitantes interessados em arte tumular, arquitetura, botânica e história local, gerando receita que pode ser reinvestida diretamente na conservação do patrimônio. Mais do que isso, esse movimento amplia o reconhecimento social da importância desses lugares, fortalecendo o apoio político e comunitário à sua preservação.
Conforme aponta Tiago Schietti, o turismo cemiterial bem planejado figura entre as ferramentas mais poderosas para garantir a viabilidade de longo prazo desses espaços. Sua implementação, contudo, requer cuidado redobrado: é fundamental estabelecer rotas e horários que não interfiram nas cerimônias fúnebres, formar guias especializados e comunicar com clareza o propósito educativo e cultural das visitas. O respeito às famílias enlutadas deve ser sempre a prioridade absoluta.
Quais práticas de gestão sustentável se aplicam a cemitérios tombados?
A gestão sustentável de cemitérios históricos envolve dimensões técnicas, ambientais e sociais que precisam ser tratadas de forma integrada. Entre as práticas mais relevantes estão o mapeamento e catalogação do acervo funerário, a implementação de sistemas de drenagem que preservem as fundações das estruturas históricas, o uso de técnicas de restauro compatíveis com os materiais originais e a adoção de programas de gestão de vegetação que equilibrem o caráter paisagístico com a segurança.
Nesse contexto, como destaca Tiago Schietti, a tecnologia tem papel cada vez mais relevante nesse processo de modernização sem perda de identidade. Ferramentas de digitalização de acervos, softwares de gestão de conservação preventiva e plataformas de comunicação com a comunidade ampliam a capacidade de intervenção das equipes gestoras. Mais do que modernizar processos, essas soluções criam registros duradouros que protegem a memória coletiva mesmo diante de riscos físicos inevitáveis ao longo do tempo.
Preservar o passado é investir no futuro do patrimônio cultural urbano
O equilíbrio entre tombamento, memória e gestão operacional não é uma equação de solução única. Cada cemitério histórico possui especificidades que exigem abordagens customizadas, construídas a partir do diálogo entre gestores, comunidades, poder público e especialistas do setor. O que une todas as experiências bem-sucedidas, no entanto, é a compreensão de que preservar não é imobilizar, mas sim garantir que a história continue viva e acessível para as gerações futuras.
Viabilidade operacional e preservação cultural não são objetivos opostos, mas complementares. A trajetória profissional de Tiago Schietti ilustra com precisão que, quando a gestão é profissional, criativa e comprometida com o patrimônio, é possível honrar o passado sem abrir mão de um presente eficiente e de um futuro sustentável para esses espaços tão singulares.
Autor: Diego Rodríguez Velázquez