Entre as situações que desafiam famílias de idosos, o Doutor Yuri Silva Portela, pós-graduado em geriatria, destaca uma que combina bem-estar animal, segurança domiciliar e saúde do idoso de forma que raramente recebe a atenção clínica que merece: o acúmulo progressivo de animais em casa além do que o idoso consegue cuidar. O que começa com um gato adotado por compaixão pode evoluir para dezenas de animais vivendo em condições precárias, com o idoso incapaz de reconhecer o problema ou de aceitar qualquer intervenção da família.
Neste artigo, veremos o que está por trás desse comportamento e como a família pode agir de forma que proteja o idoso sem destruir o vínculo.
O que está por trás do acúmulo de animais no idoso?
O acúmulo de animais no idoso raramente é arbitrário ou simplesmente resultado de falta de controle. Ele frequentemente reflete uma necessidade emocional real de companhia, de propósito e de conexão afetiva que o envelhecimento progressivamente compromete. O idoso que perdeu o cônjuge, que vê os filhos raramente e que sente que já não é necessário para ninguém, frequentemente encontra nos animais uma forma de vínculo incondicional e de responsabilidade cotidiana que preenche um vazio que a família não está conseguindo preencher de outras formas.
Yuri Silva Portela detalha que, quando o acúmulo de animais é progressivo, compulsivo e acompanhado de incapacidade de reconhecer as condições precárias em que os animais vivem, pode estar em curso o transtorno de acumulação, condição psiquiátrica com prevalência crescente na terceira idade e que frequentemente se manifesta inicialmente com animais antes de se estender a objetos. Esse diagnóstico tem implicações terapêuticas específicas que vão além da simples remoção dos animais e que requerem acompanhamento psicológico especializado.
Os riscos reais para a saúde do idoso
A convivência com muitos animais em ambiente domiciliar confinado cria riscos de saúde reais para o idoso, que precisam ser nomeados claramente pela família e pelo médico. Zoonoses como toxoplasmose, leptospirose e dermatofitoses têm maior probabilidade de transmissão em ambientes com alta densidade animal e higiene comprometida, e o idoso imunossupresso ou diabético tem menor capacidade de resistir a essas infecções. Adicionalmente, o risco de quedas aumenta significativamente quando o ambiente domiciliar está tomado por animais que circulam pelo chão e que podem ser pisados ou que se enroscam nas pernas do idoso durante a deambulação.

Na perspectiva de Yuri Silva Portela, a qualidade do ar domiciliar também se deteriora em ambientes com muitos animais mal higienizados, com impacto real sobre idosos com doença pulmonar obstrutiva crônica, asma ou insuficiência cardíaca, condições em que a qualidade do ar tem repercussão direta sobre a função respiratória e cardiovascular. Por isso, esses riscos precisam ser comunicados ao idoso de forma clara e empática, sem tom de julgamento, para que ele possa compreender as consequências reais do ambiente que está criando.
Como a família deve abordar o assunto sem gerar conflito?
A abordagem mais comum das famílias diante do acúmulo de animais é a remoção forçada, que invariavelmente produz conflito intenso, quebra de confiança e piora do comportamento de acumulação após o episódio. Com efeito, o idoso que tem seus animais removidos sem participação ativa no processo frequentemente busca repor o que perdeu com ainda mais intensidade, agravando o problema que a intervenção buscava resolver.
Conforme ressalta Yuri Silva Portela, uma abordagem mais eficaz começa por reconhecer a necessidade emocional que está por trás do acúmulo e por buscar formas de atendê-la de forma mais saudável e sustentável. Aumentar a frequência de visitas familiares, conectar o idoso a grupos de convivência, envolvê-lo em atividades com propósito e oferecer apoio para cuidar adequadamente de um número menor de animais são estratégias que abordam a causa sem confrontar diretamente o comportamento.
Quando a situação requer intervenção mais estruturada
Quando o acúmulo de animais já representa risco imediato para a saúde do idoso ou dos próprios animais, quando o idoso não tem capacidade cognitiva de reconhecer o problema e quando as abordagens de diálogo já foram esgotadas sem resultado, a intervenção precisa ser escalada com o envolvimento de profissionais de saúde mental, do médico que acompanha o idoso e, quando necessário, de serviços de proteção animal e de saúde pública.
Yuri Silva Portela conclui que o idoso que acumula animais está comunicando algo sobre solidão, perda de propósito e necessidade de vínculo, que a família e o sistema de saúde têm responsabilidade de ouvir antes de simplesmente remover os animais e fechar o caso. Afinal, a solução que protege o idoso e os animais é também aquela que cuida do que está por trás do comportamento.