Segundo o engenheiro Odair José Mannrich, fundador da Versa Engenharia Ambiental, um dos problemas mais caros e menos visíveis da infraestrutura hídrica brasileira não está na falta de chuva nem na escassez de mananciais. Está dentro das próprias redes de distribuição, onde bilhões de litros de água tratada desaparecem antes de chegar a qualquer torneira.
Leia a seguir e saiba mais sobre o que está por trás desse desperdício, por que ele persiste e quais caminhos técnicos estão sendo trilhados para revertê-lo.
Água que some antes de chegar ao destino
O índice de perdas nos sistemas de abastecimento de água é um dos indicadores mais reveladores da qualidade da infraestrutura hídrica de um país. No Brasil, esse índice médio supera 38%, o que significa que mais de um terço de toda a água captada, tratada e bombeada nunca chega ao consumidor final. Em alguns municípios, esse número ultrapassa 60%.
Para ter dimensão do que isso representa, estima-se que o volume de água perdido anualmente no Brasil seria suficiente para abastecer uma cidade do porte de São Paulo por vários anos. O custo financeiro associado a essa perda, considerando captação, tratamento, bombeamento e distribuição, chega à casa dos bilhões de reais por ano, arcados direta ou indiretamente pela população.
Dois tipos de perda que exigem respostas diferentes
Nem toda perda num sistema de abastecimento tem a mesma origem, e entender essa distinção é fundamental para escolher as intervenções certas. As perdas reais, também chamadas físicas, ocorrem por vazamentos em tubulações, juntas mal vedadas, extravasamentos em reservatórios e falhas em válvulas. São litros que efetivamente escapam da rede antes de qualquer uso.
Já as perdas aparentes não envolvem água que vazou, mas água que foi consumida sem ser registrada ou cobrada. Ligações clandestinas, hidrômetros descalibrados e erros de medição compõem esse grupo. Ambas as categorias impactam o balanço hídrico e financeiro dos sistemas, mas demandam estratégias técnicas completamente distintas para serem combatidas.
Conforme aponta o engenheiro Odair José Mannrich, com atuação em projetos de infraestrutura hídrica e ambiental, tratar os dois tipos de perda como um problema único é um erro recorrente que compromete a eficácia das intervenções e desperdiça recursos que já são escassos.

Tecnologia como aliada no combate ao desperdício
Nas últimas décadas, o setor de saneamento incorporou um conjunto de ferramentas tecnológicas que transformaram a capacidade de detectar e reduzir perdas. Sensores acústicos capazes de identificar vazamentos sem abertura de vala, sistemas de telemetria que monitoram a rede em tempo real, modelagem hidráulica computacional e geoprocessamento aplicado ao cadastro de redes são algumas das soluções que já estão em uso em operadores mais avançados.
Na perspectiva do engenheiro Odair José Mannrich, a tecnologia disponível hoje para gestão de perdas em sistemas hídricos é substancialmente superior ao que era acessível há uma geração. O desafio, nesse caso, deixou de ser tecnológico e passou a ser operacional e gerencial: como implementar essas ferramentas de forma contínua, com equipes qualificadas e processos bem definidos, em operadores que muitas vezes ainda trabalham de forma reativa, agindo apenas quando o vazamento já se tornou visível.
Setorização: a estratégia que mais resultados têm gerado
Entre as abordagens técnicas para redução de perdas, a setorização das redes de distribuição se destaca como a de maior impacto comprovado. O conceito é simples: dividir a rede em zonas menores e independentes, com controle de entrada e saída de vazão em cada setor, permite identificar com precisão onde as perdas estão concentradas e priorizar intervenções com base em dados reais.
Operadores que implantaram programas estruturados de setorização no Brasil conseguiram reduzir seus índices de perdas em até 20 pontos percentuais em alguns anos. Não se trata de tecnologia cara ou inacessível, mas de método. O que faz diferença é a consistência da aplicação e a capacidade técnica de interpretar os dados gerados.
Reabilitação de redes: investimento que se paga
Substituir tubulações antigas, reabilitar ramais deteriorados e modernizar sistemas de medição são intervenções com custo inicial relevante, mas com retorno financeiro demonstrável em prazos relativamente curtos. Conforme aponta Odair José Mannrich, cada litro recuperado representa água que já foi captada e tratada, ou seja, energia e insumos que não precisam ser gastos novamente.
Ainda assim, programas de reabilitação de redes enfrentam resistência nos processos de planejamento orçamentário de muitas operadoras. Obras visíveis e inaugurações têm apelo político maior do que a manutenção de infraestrutura existente, mesmo quando essa manutenção gera mais resultado concreto para a população.
O que separa os sistemas eficientes dos que continuam sangrando?
A diferença entre um sistema de abastecimento que controla bem suas perdas e outro que convive cronicamente com índices elevados raramente é tecnológica. É, sobretudo, uma questão de gestão. Planejamento de longo prazo, manutenção preventiva, investimento contínuo em capacitação técnica e cultura organizacional orientada por indicadores são os fatores que distinguem os operadores mais eficientes.
No fim, Odair José Mannrich conclui que esse é um setor em que a excelência técnica precisa ser construída de forma sistemática, e não pontual. Programas de redução de perdas que funcionam são aqueles tratados como política permanente, e não como projetos com data de encerramento. Enquanto essa mentalidade não se consolidar de forma mais ampla entre os operadores brasileiros, o desperdício continuará custando caro, em água, em energia e em dinheiro público.
Autor: Diego Rodríguez Velázquez