Golpes digitais com inteligência artificial crescem no Brasil; veja como se proteger

Diego Rodríguez Velázquez
Golpes digitais com inteligência artificial crescem no Brasil; veja como se proteger

Deepfakes, phishing sem erros de português e clonagem de voz elevam a sofisticação das fraudes financeiras em 2026.

O golpe que antes exigia uma equipe inteira de criminosos hoje pode ser executado por um único agente automatizado. Com o avanço da inteligência artificial, fraudadores passaram a produzir e-mails, áudios e até vídeos com alto grau de realismo, o que tem elevado a sofisticação dos golpes financeiros no Brasil e gerado uma dúvida recorrente entre os usuários de bancos e fintechs: como diferenciar um contato legítimo de uma fraude, e o que fazer caso o pior aconteça? Segundo dados do Banco Central obtidos via Lei de Acesso à Informação e divulgados pelo Portal Sala da Notícia, as notificações de suspeita de fraude no Pix já ultrapassam a média de 390 mil registros mensais, e as perdas relacionadas a esse tipo de golpe somaram cerca de R$ 4,9 bilhões em um único ano. Diante desse cenário, entender as ferramentas de proteção disponíveis se tornou essencial para qualquer pessoa que movimente dinheiro pelo celular.

Como a inteligência artificial mudou o perfil dos golpes financeiros

Os criminosos passaram a usar a inteligência artificial praticamente da mesma forma que uma equipe de marketing usa um manual de identidade visual de marca: analisam tudo o que uma instituição financeira produz e replicam o mesmo padrão visual e o mesmo tom de comunicação para aplicar golpes de phishing quase indistinguíveis dos originais, segundo relata a Finsiders Brasil. Some-se a isso a clonagem de voz e o uso de deepfakes para se passar por familiares ou executivos em ligações, além de ataques que utilizam credenciais vazadas em bases de dados para tentar acessar contas em diferentes bancos de forma automatizada. O resultado é que fraudes que antes levavam dias para serem estruturadas agora acontecem em questão de segundos.

Diante desse novo cenário, o setor financeiro tem investido em análise de risco dinâmica, abandonando modelos antifraude baseados apenas em regras fixas, aponta a Finsiders Brasil. A chamada orquestração adaptativa ajusta automaticamente o nível de segurança exigido conforme o risco identificado em cada transação: operações consideradas seguras seguem com menos etapas de verificação, enquanto movimentações suspeitas recebem camadas extras de autenticação, descreve o Portal Sala da Notícia. A Resolução BCB nº 403, em vigor desde novembro de 2024, já obriga bancos e fintechs a adotar sistemas de monitoramento antifraude e a impor limites de transação para dispositivos ainda não cadastrados pelo cliente.

O que mudou na legislação para proteger o consumidor

Em maio de 2026, entrou em vigor a Lei 15.397/2026, que alterou o Código Penal e endureceu as penas para crimes ligados a fraudes financeiras digitais, conforme detalha a Dimensa. A chamada conta laranja, usada por criminosos para movimentar recursos ilícitos, passou a ser crime autônomo, com pena de reclusão de um a cinco anos, além de multa. Já o estelionato qualificado por fraude eletrônica, quando o golpe envolve clonagem de celular ou computador, passou a ter pena de quatro a oito anos de reclusão. A mudança pressiona bancos e fintechs a adotarem processos de verificação de identidade mais rigorosos antes de liberar a abertura de novas contas.

Além da legislação penal, o consumidor conta com ferramentas gratuitas oferecidas pelo próprio Banco Central para reforçar sua proteção, segundo reúne o material da Inteligência Setorial. O BC Protege+ funciona como um bloqueio preventivo contra a abertura de contas não autorizadas em nome da pessoa, enquanto o Registrato permite consultar um extrato completo de todas as relações mantidas com instituições financeiras, incluindo chaves Pix e empréstimos registrados no CPF. Já o Mecanismo Especial de Devolução, o MED, detalhado pela Inteligência Setorial, permite contestar transações feitas via Pix em casos de fraude comprovada, com prazo de até 80 dias após a operação.

Como reconhecer um golpe e o que fazer em caso de fraude

Entre os sinais mais comuns de um golpe está a sensação de urgência criada pelo criminoso, que costuma pressionar a vítima a agir rapidamente, seja confirmando uma senha, autorizando um acesso remoto ou realizando um Pix imediato. Ligações que aparentam vir de números oficiais do banco, como 0800, 4003 ou 3003, também são usadas para dar aparência de legitimidade a fraudes conhecidas como falsa central telefônica, em que o criminoso se passa por funcionário da instituição financeira, conforme descreve o especialista em direito digital Gutemberg Amorim. Conferir sempre os dados do recebedor antes de confirmar qualquer transferência e desconfiar de qualquer contato que peça informações sigilosas por telefone são atitudes simples que reduzem bastante o risco.

Caso a fraude já tenha acontecido, o primeiro passo é notificar a instituição financeira o quanto antes, já que a velocidade da resposta influencia diretamente as chances de recuperação dos valores por meio do MED, segundo orienta Gutemberg Amorim. Também é recomendável registrar boletim de ocorrência e reunir provas da comunicação fraudulenta, como prints de conversas e números utilizados pelo golpista. A responsabilidade das instituições financeiras em casos de fraude vem sendo debatida com mais frequência pelo Judiciário, que tem reconhecido a responsabilidade objetiva dos bancos quando há falha comprovada nos processos de segurança. Ainda assim, a prevenção continua sendo a defesa mais eficaz contra um tipo de crime que evolui na mesma velocidade da tecnologia que promete facilitar a vida financeira do brasileiro.

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