Lucas Peralles explica por que remédios para emagrecer podem intensificar o efeito sanfona 

Adrian Kovaren
Lucas Peralles

Lucas Peralles, nutricionista esportivo em São Paulo, observa um padrão que tem se tornado cada vez mais comum: pessoas que perdem peso rápido com o uso de medicamentos e, ao interromper o tratamento, veem os quilos voltarem em um ritmo ainda mais acelerado do que em dietas tradicionais. O medicamento resolve parte do problema, mas pode deixar o corpo mais vulnerável ao reganho depois que o uso termina, especialmente quando nenhum outro ajuste acompanha o tratamento.

Entender por que isso acontece ajuda a separar o que é mito do que é mecanismo biológico real, e evita que o remédio seja tratado como solução definitiva quando, sozinho, ele raramente é, por mais eficaz que pareça durante o período de uso.

Por que o peso volta rápido depois de parar o remédio?

Efeito sanfona é o nome popular para o ciclo de perder peso e recuperá-lo depois, muitas vezes ultrapassando o peso inicial. Ele não acontece só com dietas restritivas, também pode se instalar depois do uso de medicamentos para emagrecer, seguindo uma lógica parecida.

Estudos com medicamentos usados para emagrecimento mostram que a maioria das pessoas apresenta reganho de peso acelerado depois da interrupção do tratamento, em alguns casos retornando perto do peso inicial em pouco mais de um ano. Isso acontece porque boa parte do efeito desses medicamentos está ligada à redução do apetite e a ajustes hormonais que existem apenas enquanto a substância está no organismo.

Quando o tratamento termina, o corpo tende a voltar ao padrão hormonal anterior, com aumento da fome e queda no gasto energético, um cenário parecido com o que acontece depois de dietas muito restritivas, só que instalado de forma mais abrupta e, muitas vezes, mais difícil de perceber a tempo.

Além disso, pesquisas mostram que marcadores como pressão arterial, colesterol e glicemia, que melhoram durante o tratamento, tendem a piorar junto com o reganho de peso, às vezes retornando perto dos níveis registrados antes do início do uso do medicamento.

O que os medicamentos fazem no organismo enquanto estão em uso?

Boa parte dos medicamentos modernos para emagrecimento atua em hormônios ligados à saciedade, reduzindo o apetite e facilitando o déficit calórico necessário para a perda de peso. Enquanto o tratamento continua, esse mecanismo funciona a favor da pessoa, tornando mais fácil comer menos sem a sensação constante de fome que costuma acompanhar dietas tradicionais.

Lucas Peralles
Lucas Peralles

O problema aparece quando a perda de peso não é acompanhada de treino de força e alimentação estruturada durante o próprio tratamento. Sem esses dois pilares, parte relevante do peso perdido tende a vir de massa magra, não só de gordura, o que compromete a base metabólica que sustentaria o resultado depois que o medicamento for descontinuado.

Por que a perda de massa magra agrava esse ciclo?

Lucas Peralles aponta que esse é o ponto mais subestimado em tratamentos rápidos, sejam eles medicamentosos ou baseados em dietas extremas: perder músculo junto com a gordura reduz a taxa metabólica basal, deixando o corpo mais propenso a recuperar peso quando a intervenção termina, seja ela farmacológica ou dietética.

Isso explica por que duas pessoas podem perder a mesma quantidade de peso com o mesmo remédio, mas reganhar em ritmos completamente diferentes depois: quem manteve treino de força e proteína adequada durante o processo preserva mais massa magra e chega ao fim do tratamento com uma base metabólica mais resistente ao reganho.

A diferença não está apenas no organismo de cada pessoa, mas principalmente no que foi construído ao lado do medicamento. Quem trata o período de uso como uma janela de oportunidade para criar hábitos novos tende a sair em vantagem em relação a quem depende exclusivamente da substância para manter o resultado.

Remédio pode ser aliado sem virar dependência?

Sim, mas o ponto central está em como ele é usado. Lucas Peralles considera que o problema não é o medicamento em si, é tratá-lo como solução isolada e permanente, sem construir, ao mesmo tempo, os hábitos que vão sustentar o resultado quando o tratamento não estiver mais presente.

Isso vale tanto para remédios quanto para qualquer outro atalho: medicação é ferramenta, não personalidade. Usada em paralelo com treino de força, alimentação estruturada e acompanhamento profissional, ela pode reduzir o sofrimento do processo sem se tornar o único pilar sustentando o resultado.

Interromper o uso sem nenhum planejamento prévio costuma ser outro erro comum. Um plano de transição, pensado antes mesmo do fim do tratamento, ajuda o corpo e a rotina a se ajustarem de forma mais gradual, reduzindo o impacto do reganho nas primeiras semanas após a interrupção.

O que fica dessa relação entre remédio e efeito sanfona?

O reganho de peso depois de medicamentos para emagrecer não é falha de disciplina, é resposta biológica a um tratamento que, quando interrompido, retira um dos apoios que sustentava o resultado. Isso não invalida o uso de medicação quando indicada, mas reforça que ela raramente funciona bem sozinha, sem estrutura ao redor.

Lucas Peralles, à frente da Clínica Peralles, destaca que o acompanhamento durante o uso do medicamento, e não só depois que ele acaba, é o que determina se o resultado alcançado vai se sustentar ou repetir o mesmo ciclo de perda e reganho. No Método LP, quando um paciente usa medicação, ela é tratada como ferramenta, não como identidade: o acompanhamento treina autonomia em paralelo ao uso, para que o resultado não dependa só do remédio enquanto ele dura. 

Para acompanhar mais conteúdos sobre emagrecimento e comportamento alimentar, siga @nutriperalles no Instagram.

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